Amigos, amigos….música a parte

Estado de torpor

E sabem o que é pior? É que todo mundo vê o que acontece, mas fecha os olhos diante da realidade. Ou o roqueiro goiano é muito tapado, ou sabe do que está acontecendo e não quer saber, ou simplesmente é subserviente porque é amigo de tal pessoa importante da “imprensa cultural” e de banda da cidade, e não quer ficar “de mal” com essa gente. Aí, temos um caso sério de “boa decência”, em que os críticos e reclamões são constantemente rechaçados pela maioria burra, pelo fato de expôr uma outra realidade frente a verdade absoluta que é o movimento rock goiano. E quando falo reclamar, não é querer ser chato, mas dar uma luz à tudo ao redor, e quando falo criticar, não é simplesmente falar mal pelos cotovelos, e sim fazer o povo refletir, fazer auto-crítica.

Aliás, o rock goiano passa por uma fase boa, mas que na verdade é bem maquiada por algumas pessoas que detém o poder. E quando eu falo “detém o poder”, são os organizadores, produtores, bandas, jornalistas e blogueiros que obtém a informação, mas repassa ao público de maneira torta, e aí muita gente acredita nessas coisas, mas que não passam de balelas superficiais. Chegamos numa época em que uma banda para se tornar “famosa” na cidade, precisa se humilhar publicamente na frente de donos de selos por um espaço num festival ou um cd gravado, ou precisa fazer “os contatos” certos e se tornar amiguinho da imprensa cultural local pra se fazer importante. Bom, se antigamente bastaria um grupo musical tocar e o público aprovar, pronto, taí o tal “sucesso”….hoje não basta isso, tem que fazer marketing pessoal, marketing da banda, além de entregar a demo, babar o ovo de quem merece ou não merece, pelo fato de você não admirar a pessoa em questão, mas é que fazendo isso, você está com a faca e o queijo na mão em questão de contatos. Ninguém monta mais banda pelo simples prazer de tocar, fazer música e fazer shows por aí, todo mundo agora monta banda porque “tá na moda”, e “se eu fizer esse tipo de som tal selo importante da cidade irá me contratar” e outras pequenices mais.

Então, querem um exemplo de pequenice. Uns caras montam um projeto electro-rock, “bombam” em Goiânia, gravam um cd por um selo goiano, ficam um ano fazendo shows nos palcos locais, tocam nos principais festivais da cidade, e recebem elogios rasgados da crítica e começam a fazer shows fora do estado natal, com seu som um pouco “datado”, mas “dançante” e hype (porque todo mundo fala que gosta), e pouco importa se é um som chupado de um dj famoso das gringas, ninguém percebe a picaretagem mesmo…..Só que um ano e meio depois, o grupo se separa, alegam divergências musicas (mas na verdade alguém comeu a namorada de alguém), e que não dá pra continuar desse jeito. Ou a banda tem um pensamento medíocre de “estourar” só na região natal, ou é um caso de burrice musical e falta de criatividade. Na maioria das vezes é a primeira opção, e a gente daqui de Goiânia, vemos muitas bandas assim, medíocres só por deturparem o “sentimento de montar uma banda por gostar de música”, e se querem e podem tocar no RS, SP, RJ, Curitiba e Salvador, porque não vão? Não me digam que é por falta de contato e falta de grana, que não cola. Interessante que essas bandas só ficam no rodízio de intercâmbio de produtores locais e de outros estados, no estilo “eu levo uma banda pro seu estado, que você traz uma banda pra cá”. Pôrra gente, pensem grande (Alckmin style).

Aliás, essa onda nova agora, além do eixo SP-RJ, de intercâmbio de bandas de estados diferentes como PA, BA, RR, AM, MT, dentre outros, tem dois lados da moeda. Por  um lado é bom porque dá oportunidade a várias bandas legais, que não teriam outra oportunidade a não ser essa, de viajar e tocar pra público diferente em festival. O lado ruim é que daqui a pouco a tendência é ser “outro eixo do mal”(se já não tá virando), uma dicotomia perigosa, em que as bandas são as mesmas, os estilos musicais são os mesmos, as mesmas pessoas. E muita gente boa do Rio ou São Paulo fica de fora, pelo fato de serem paulistas e cariocas, e o pensamento é de que eles não precisam de oportunidades dos produtores da instituição nacional (menos RJ-SP), já que estão no meio certo pra se deslancharem….e bandas de estilos que não sejam stoner, electro ou powerpop, podem ser relegadas a segundo plano, porque não são o novo “Daniel Belleza e os Corações em Fúria”, ou fazem um som muito estranho pro público aceitar, não têm o apelo “pop”. Essas instituições estão se tornando “mainstream”, e o que é pior, pregando a bandeira independente. E quando falo “mainstream”, é na sua forma mais cruel, onde interesses escusos são mais fortes que o tesão pela música, e que as bandas estão em segundo plano, seguindo a ideologia “a gente precisa de gravadora ou produtora de shows”, quando na verdade é justamente o contrário, são as gravadoras e produtoras que precisam das bandas, mas o grau de subversiência não permite a analogia crítica, e se têm a crítica, é melhor não falar, porque corre o risco de quebrar a cara no meio. Cara, estamos no século XXI, era digital, do mp3, do myspace, orkut, fotolog e tramavirtual….será que ainda precisamos da velha fórmula e relação “gravadora-banda”, mesmo sendo gravadora independente? A Calypso está aí pra mostrar que se pode fazer música de forma totalmente independente e ainda ganhar dinheiro, e no meio rock, existem várias bandas por aí que não necessitam de gravadora (Fresno te diz alguma coisa?). O rock independente pode se dar bem, sem se tornar “mainstream” na sua mais vil forma, a da manipulação.

Será que é tão difícil enxergar essas coisas? Ou a galera está em um grau de êxtase ou torpor, que impossibilita de enxergar a real de tudo isso, ou será que as pessoas estão com medo de criticar? Será que tem que existir algum blogueiro, jornalista, colunista ou alguém de bom-senso pra polemizar a parada na internet e dar uma acordada geral no pessoal com um tapa na cara? Será que ninguém sabe o que é auto-crítica, e principalmente, a auto crítica da cena roqueira independente goiana? Será que ainda terei que ler bobagens escritas no orkut, do tipo “fiasco é pra quem não sabe aproveitar”? Será que ainda aguentarei acessos de egocentrismo e megalomania de certas pessoas aqui em Goiânia Rock City?

Na verdade, acho que a maioria das pessoas são burras, porque querem, e  é mais cômodo.

outubro 31, 2007 Posted by | Uncategorized | 3 Comentários

Voltei a escrever, fazia tempo que não entrava nessa bagaça né?

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Prometo que daqui por diante escrevo regularmente, ou quando algum assunto interessante vier à tona. E vim aqui justamente para colocar à diposição o disco novo de uma das melhores bandas suecas que já existiram (não….não é o ABBA). Há algum tempo atrás, estava ouvindo os dois primeiros discos do The Hives e me perguntei: “porra, taí uns caras que estão sumidos, aonde eles se enfiaram?”. A resposta veio em agosto desse ano com o lançamento de um single, chamado “Tick Tick Boom”. A primeira audição dessa música foi meio que um choque, porque eles mantiam a pegada punk característica dos álbuns anteriores, mas podia perceber-se alguns lances novos, influências diferentes além da tríade “Ramones-The Clash-Sex Pistols”. Se no álbum Tyranossaurus Hives, a estética garageira foi o centro das atenções, o single Tick Tick Boom já mostrava o que estava por vir nesse novo disco. E dito e feito.

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“The Black and White Album” foi lançado em outubro, e mostra um The Hives diferente. Uma banda madura, mas com o mesmo espírito juvenil dos primeiros discos. Madura, porque o som não se limita a três acordes e rapidez do punk, e a estética suja garageira, vai um pouco mais além. É claro que esses dois estilos estão presentes no disco, mas a banda flerta com o jazz big band e a música vaudeville (Well Allright!), a levada e batida disco (T.H.E.H.I.V.E.S.), o post-punk com o baixo e bateria marcante (Bigger Hole To Fill) e tem até uma pitada eletrônica na parada (Giddy Up). Um disco bem diversificado, seguindo uma tendência “new rock” de bandas como Bloc Party, Franz Ferdinand e Kings of Leon, ou seja, reciclar o rock de antigamente com uma roupagem nova. A diferença é que o The Hives faz com uma responsabilidade poucas vezes vista.

Tendo em vista quem fez a produção de “The Black and White Album”, podemos perceber que eles utilizaram bem o potencial da banda, além de deixar a criatividade dos caras à vontade, só dando uns toques importantes no som deles, para deixar atual. Além dos próprios Hives produzirem, Jacknife Lee (Editors, Bloc Party, Snow Patrol) e Dennis Herring (Modest Mouse, Elvis Costello, Camper Van Beethoven e Counting Crows) participaram do processo. Mas a grande surpresa é a dupla The Neptunes, famosa pelos trabalhos com o eletrônico e o hip-hop, que também deram uma mãozinha nesse disco, perceptível em músicas como T.H.E.H.I.V.E.S. e Giddy Up.

“The Black and White Album” não é o melhor disco dos Hives, mas com certeza é um disco pra se curtir de cabo a rabo, colocar numa festa e dançar até se acabar. As influências punk estão presentes, mas se ouvir com clareza há ali The Fall, The Sonics, The Stooges, MC5 e bandas nuggets dos anos 60, inseridas harmoniosamente. Posso colocar esse disco nos dez melhores desse ano, com certeza.

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The Hives – The Black And White Album

outubro 29, 2007 Posted by | The Hives, The Neptunes | 1 Comentário

Há luz no fim do túnel de Seattle

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Em meio a bandas que consagram o virtuosismo instrumental, considerado por alguns o máximo da chatice e punhetagem, e outras tantas que cultivam o jeito Wolfmather de ser, ou seja, uma pitada de hard rock dos anos 70 e o jeito “cool” do stoner rock e “new rock”, existem grupos que fazem a gente pensar “putz, há luz no fim do túnel, afinal”.

Uma dessas bandas é o Kinski, vindo de Seattle….isso mesmo, a cidade natal de Jimi Hendrix, e que na década de 90 ficou conhecida pelo boom que modificou os rumos da música rock, o grunge. Formado em 1998 e com seis discos na bagagem, o Kinski é um dos carros-chefes do famoso selo independente Subpop, fazendo um rock instrumental vigoroso e experimental, cheio de “guitarradas”, solos comedidos mas eficientes, com um som influenciado por várias vertentes da música, chamando a atenção pela desconstrução, comum em suas canções, dando um novo sopro de vida ao post-rock. Em suas músicas, podemos observar cada banda que influencia e dita o ritmo do Kinski, mas de certa forma eles misturam as influências, fazendo uma coisa totalmente renovadora e interessante.

Eles acabam de lançar o álbum “Down Below It’s Chaos”, mas não é esse o disco que irei colocar aqui para download, e sim o anterior, o fantástico “Alpine Static”, lançado em 2005, e que mostra que o instrumental não é só jazz ou Vangelis“Hot Stenographer” e não é o virtuosismo progressivo de alguns grupos por aí. Recomendo as músicas , que abre o disco, além dos petardos “The Wives of Artie Shaw” e “Hiding Drugs in the Temple (Part 2)”, e se você quiser um pouco de experimentação, as boas pedidas são “The Snowy Parts of Scandinavia” e “Spacelaunch for Frenchie”.

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Kinski – Alpine Static

outubro 2, 2007 Posted by | Kinski, post-rock, Seattle, Subpop | Deixe um comentário